Como Pensar sobre a nossa Relação


Enquanto seres inteligentes, todos nós fazemos diariamente centenas de julgamentos. É inevitável, faz parte da nossa forma de avaliar tudo o que nos rodeia e é fundamental para a nossa sobrevivência e para as escolhas que fazemos, umas mais conscientes outras menos. Julgar é por isso, neste sentido, uma ferramenta essencial para a tomada de decisões.


É natural avaliar o que se passa na sua relação, sobretudo quando sente que ela não está a contribuir para o seu bem-estar. Não cabe ao outro, fazê-la/lo a si, feliz, mas cabe a si perceber como construir esse relacionamento de forma a que seja satisfatório e contribua para a sua realização pessoal. Se ambos gostam um do outro, é natural que ambos queiram construir um ambiente de satisfação mútua, mas essa tarefa nem sempre é fácil.


Há algumas perguntas que pode colocar sobre o seu relacionamento quando este está a atravessar uma fase difícil.

É gratificante para mim?

O que sinto que funciona entre nós?

O que vejo que não funciona?

Estou a conseguir comunicar da melhor forma o que sinto?

Sinto-me eu própria e à vontade nesta relação?

Que mudanças posso introduzir para me sentir melhor?

Estou a exigir o que não dou, ou à espera que me deem o que eu não sei dar a mim própria/o?

Tenho vontade de (re)construir um caminho a dois?

Desejo que seja esta pessoa a acompanhar-me nesta jornada?

Penso que é possível?

O que está ao meu alcance fazer para alterar a situação?


Ao tentar encontrar respostas a estas questões, irá necessariamente fazer julgamentos, que deverão ser, tanto quanto possível, objetivos, pois eles serão fundamentais para lhe permitir avaliar a relação, o seu papel nela, e para introduzir as modificações necessárias. Se vive constantemente a questionar-se, é já um sinal de que não está a fruir, não está em paz, e que está provavelmente na altura de pensar sobre o que se está a passar para poder tomar decisões.


Mas pensar e avaliar o comportamento do outro, não significa criticá-lo continuamente e julgar as suas intenções, como se lhe lesse a mente, fazendo-o na maior parte das vezes, baseado na sua própria vivência, nas suas próprias emoções, ou seja, na sua subjetividade, e não na do outro. Para além disso, julgar os outros faz-nos desviar a atenção do que se passa connosco, distraindo-nos, ou negando as nossas próprias emoções e pensamentos, quando, afinal, é por nós, que nos devemos responsabilizar em primeiro lugar.


O julgamento contínuo do outro, não só, algumas vezes, é extremamente injusto, como leva sempre a que surjam defesas e respostas de maior zanga, por se sentir injustamente acusado, ou, tão simplesmente, incompreendido, aumentando o grau de insatisfação com a relação e gerando comportamentos que o/a irão magoar a si.

Ficaremos assim perante um ciclo, que terá tendência a escalar, seja num modo quente, de maior conflito aberto, seja num modo frio, de maior distanciamento. Dependendo dos traços de personalidade de cada um, é possível, até, ter da parte de um dos membros mais reações “quentes” e do outro membro, mais reações “frias”, mas, de uma forma, ou de outra, se nada for feito, e o ciclo não for interrompido, a escalada irá continuar conduzindo ao desgaste e eventualmente à ruptura.


Nestas alturas, torna-se claramente necessário julgar/avaliar a relação e o papel que você desempenha nela, focando-se nas suas próprias necessidades e anseios, sem ceder à tentação de explicar tudo o que está a acontecer com um “porque el (ele/ela) …”. Lembre-se, o sujeito da acção deverá ser sempre você, porque você não controla o comportamento do outro, logo não pode esperar, e ainda menos exigir, que el o altere em função de si, tudo o que pode é clarificar perante si as suas necessidades, perceber o que sente quando o outro faz ou diz qualquer coisa, aprender a comunicar sentimentos e desejos e perceber até que ponto a outra pessoa quer/deseja/consegue, ou não, vir mais ao seu encontro.


Não se esqueça que o outro também não lê a sua mente (ou fá-lo com a subjectividade que lhe é própria, enganando-se e cometendo injustiças para consigo…). Torna-se, por isso, necessário conversar calmamente sem julgamentos “à priori”, sem reservas sobre sentimentos e vulnerabilidades, num registo de verdadeira intimidade. Aumenta assim, a probabilidade de se poder construir uma relação saudável a dois, em que há espaço para a individualidade, em que cada um se sente livre e autónomo e em que há espaço comum de construção, partilha e apoio mútuo, gerando um “Nós” consistente, sem prejuízo dos “Eus” que compõem a relação, num espaço em que a vivência e fruição estão mais presentes do que o julgamento e a condenação.


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