Alegria, um dos lados da moeda



A Minha Felicidade

Desde que me cansei de procurar,

Aprendi a encontrar;

Desde que o vento soprou contra mim,

Velejo com todos os ventos.


Friedrich. Nietzche in “Alegre Sabedoria” (1882)



A alegria de ter um filho, a alegria da libertação, a alegria da partida, a alegria da chegada, a alegria da viajem, a alegria de um reencontro há tanto esperado, a alegria de uma boa notícia, a alegria da conquista, a alegria da vitória, a alegria da partilha, todas estas alegrias poderão ser expressas em risos e palavras, beijos e abraços, danças e cantares, estátuas e pinturas, em poemas, como a ode de Schiller, em música, como a de Beethoven.


A Alegria é talvez a emoção mais desejada e que todos nós pretendemos agarrar e partilhar. Todas as emoções têm uma energia e movimento específico que lhes está associado, uma tendência de acção. Sabemos que o medo, por exemplo, leva à fuga ou à paralisia como meio de protecção. A tristeza leva ao choro e ao recolhimento, como meio de recuperação da dor que sentimos por algo que perdemos, e a alegria traz consigo o sorriso ou mesmo o riso, e uma enorme energia vital.

Poderíamos então perguntarmo-nos:

Porque não podemos estar sempre alegres?

Não seria essa a melhor forma de ser feliz?

Mas algo nos diz, talvez o bom senso, que seria ingenuidade acreditar que tal fosse possível, ou sequer, desejável.

Que valor daríamos à alegria se não conhecêssemos a tristeza?

Que valor daríamos à vida se não soubéssemos que a morte é certa?

É como se partíssemos em busca do baú das moedas, recusando os preparativos, a viagem, e todos os momentos, ao longo do percurso que a ele conduz.


Cogitava o filósofo F. Nietzche:

Mas, e se o prazer e a dor tiverem de estar intimamente ligados, de tal forma que quem quer uma maior quantidade de um, deverá ter também uma maior quantidade do outro, - que quem quer experimentar o “júbilo celestial", também deva estar pronto para a "tristeza mortal"?

Nesta dança dialética que é a vida, a evolução vai-se fazendo através de lutas de contrários, com essa luta e apesar dessa luta, sem dicotomias, com mais “e”s do que “ou”s. Também a nossa vida avança com tristezas e alegrias, apesar delas, com elas e até, por causa delas.


Gosto da ideia de complementaridade paradigmática, em que se percebe que os contrários, mais do que opostos, são complementares como circuitos energéticos que não podem funcionar sem as duas polaridades (positiva e negativa). Quanto mais tenho capacidade de viver a tristeza, mais capacidade terei de apreciar a alegria.

Quem adopta uma filosofia de vida atenta à saúde física e mental, sabe que uma alimentação saudável e o exercício físico regular são excelentes princípios para manter uma mente sã em corpo são. A meditação, a leitura, os momentos para se estar só, (na companhia de si próprio) são da maior importância para o nosso equilíbrio e são eles também que nos permitem dar valor aos momentos de maior actividade, intimidade e partilha; e vice-versa. Ao nível químico, o nosso organismo liberta por exemplo, endorfinas quando se pratica exercício físico ou se tem actividade sexual -esta também libertadora de oxitocina- o que se reveste de uma enorme importância para a nossa sensação de prazer, alegria e bem-estar. Contudo, seria impossível estarmos permanentemente a libertar grandes quantidades de endorfinas, e oxitocina, tal como seria impossível estar sempre em actividade. De resto, como é sabido, o sono é indispensável à reposição de níveis energéticos, bem como ao desenrolar de muitas outras tarefas absolutamente necessárias ao nosso bem-estar físico e psicológico. O sono, o repouso e a tranquilidade são-nos tão vitais como a vigília, a actividade e o entusiasmo.


Como vemos, é esta complementaridade paradigmática, entre repouso e actividade, entre solitude e proximidade, e entre outros polos de várias outras dimensões que torna possível sermos seres flexíveis que recuperam o equilíbrio, procurando dar resposta às suas necessidades psicológicas.

Também em termos emocionais, a riqueza da nossa paleta e a facilidade com que nos conseguimos movimentar nela, convivendo com as várias tonalidades, torna-nos mais resilientes e mais capazes de apreciar plenamente as alegrias da vida, dando-nos mesmo preciosas pistas de como procurá-las.

Se evitarmos sistematicamente os momentos mais complicados e tristes das nossas vidas, refugiando-nos, numa tentativa de os afastar, ou se insistirmos em ultrapassá-los rapidamente e a todo o custo, sem os vivermos por inteiro, estaremos também a contribuir para não conseguirmos saborear condignamente e em toda a sua plenitude os momentos mais felizes, e que maior satisfação nos trazem. As alegrias da vida ficarão menos brilhantes, perdendo cor. A nossa experiência fica anestesiada e a capacidade de nos alegrarmos, assim como a capacidade de nos entristecermos, diminui. No fundo, morremos um pouco.


Querer agarrar a alegria a todo o custo evitando e fugindo da tristeza pode ser fatal para o nosso equilíbrio psicológico, pois a melhor maneira de poder dizer: “Bom Dia Alegria” é poder dizer: “Boa Noite Tristeza” aceitá-la e tranquilizá-la carinhosamente. Assim ela sentir-se-á suficientemente segura para partir.

Conseguiremos então encontrar Alegria, quer no sossego quer no desassossego da vida.

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